Em tempos de crise, não se assume culpa, distribui-se. Mais um ano em que as manchetes pós-Páscoa gritam aos ventos que tivemos “a pior Páscoa desde o ano tal” e reveladores subtítulos não perdem tempo em colocar a culpa na grande vilã dos últimos tempos das últimas eleições: a crise. Maldita crise.

Acredito que daqui a algumas décadas teremos novas profissões, como a de sociólogo digital e antropólogo virtual, que, ao invés de se debruçarem sobre a sociedade atual ou em seus formatos primitivos, vão escavar comunidades de Orkut, perfis de Fotolog e linhas do tempo no Facebook para entender um pouco mais sobre o que se passava na nossa cabeça. E sabem o que eu tenho certeza que eles vão encontrar? Memes e mais memes dizendo que “essa pessoa prefere ganhar picanha e não ovo de Páscoa” ou comparando o preço por kg da barra de chocolate e dos infames ovos.

E é aí que eu pergunto: será a crise, a maldita crise, a grande culpada pela queda nas vendas? As manchetes alarmistas levam em conta as grandes fabricantes e, claro, ainda que colocassem no bolo a produção artesanal de ateliês, ainda assim haveria queda no total de vendas. Mas e se considerássemos apenas os ateliês (ou os “gourmets”)? Conheço mais de um em que as encomendas estavam esgotadas ou praticamente no seu limite de produção. E aqui vem um plot twist de deixar capa de revista domingueira impressionada: eles são ainda mais caros que os ovos encalhados nos supermercados.

Temos uma conta que não fecha: em tempos de crise, as pessoas deixaram de comprar algo caro pra comprar outra coisa ainda mais cara? Ou será - pura e simplesmente - que oferecer o mesmo produto ano após ano durante décadas simplesmente fez os consumidores perderem o interesse? Um produto que muda em forma (e preço!), mas não muda em essência de outro disponível o tempo inteiro em todas as prateleiras perde seu apelo.

É óbvio que existe um elemento crise nos números, mas se refugiar nele sem uma autocrítica vai fazer com que esse setor vire uma nova indústria automobilística, que tanto se agarrou aos incentivos federais e pouco fez pra não precisar mais deles. Mas isso é um assunto pra outro post, né?

O fato é: o efeito de “gourmetização” no Brasil não é apenas um bom motivo pra fazer memes engraçados na internet, mas um reflexo comportamental e socioeconômico de um consumidor que simplesmente não quer mais um produto feito em linha de produção industrializada, sem personalidade, com o qual ele não se identifica nenhum pouco. Talvez a crise deva ser enxergada não como um momento onde as pessoas gastam menos e aí se conformar com as quedas nas vendas, mas sim como um momento onde as pessoas escolhem muito bem com o que gastar e aí se posicionar como um produto digno de receber esse gasto.

Ou então podemos continuar dizendo que “é a crise” e sermos engolidos por ela, setor por setor. E então, quando chegar a nossa vez, poder postar no Facebook que a culpa não é nossa, nunca foi e nunca será. Fechando com alguma hashtag engajada. #ForaOvoDePáscoa