Sem saber e muito menos pedir, nasci com grande expectativa sobre o meu futuro: eu deveria mudar o mundo, revolucionar, derrubar tudo; e agora, aos 29 anos, sem saber e nem pedir de novo, ouço e leio especialistas afirmando que a minha geração falhou, que não fez o que era esperado.

Primeiro, permita-me começar dizendo, caro especialista: quando sua opinião vier acompanhada de batata frita, eu peço. Ah, prazer: nossa geração é assim mesmo! Não nos importamos com seus padrões e muito menos vamos viver de acordo com o que você espera. Somos mimados, impulsivos e faremos o que você menos espera. De verdade.

Tendo dito isso, vamos ao segundo ponto: talvez nossa geração realmente tenha falhado; ou talvez - e permita-se abrir a mente - o mundo tenha mudado completamente, mas você não percebeu nada disso, porque esqueceu de mudar junto com ele. Como você perceberia um mundo diferente quando os seus olhos cansados são a medida? E pior: a mesma medida de tantos anos atrás.

Veja bem, estou escrevendo esse texto no meu notebook, mas posso simplesmente largar tudo e continuar do meu celular ou tablet, tudo é sincronizado automaticamente. Talvez você use o mesmo sistema para armazenar arquivos, o nome é Dropbox. De nada, viu? É um presente da minha geração. E eu poderia passar parágrafos e mais parágrafos falando dessas mudanças, mas sinceramente? Elas são as menores e menos importantes.

Sabe, eu acho que a nossa geração mudou algo muito mais essencial e substancial no mundo: as relações! Talvez pareçamos mais apáticos, é verdade. Mas você realmente precisa ajustar esses óculos. Na verdade, é que não temos paciência para coisas sem sentido.

Você compra uma roupa porque gostou, justo. Mas minha geração iniciou movimentos de impacto que se importam com a origem dessas roupas: será que foi usado trabalho escravo? Você está acostumado a grandes redes de restaurantes ou cafeterias e tudo bem por isso. Mas a minha geração abre pequenas cafeterias e restaurantes que prezam pelo artesanal, pelas coisas feitas na hora e, principalmente, pelo respeito à cadeia de fornecedores. Você cresceu em uma estrutura com organização vertical, chefes, hierarquia, minha geração iniciou um movimento lá no Vale do Silício onde os salários são mais justos, as pessoas valorizadas e a organização é horizontal. Sério, quão ultrapassado é existirem barreiras em um escritório?

Mas quer saber? Fomos muito além: minha geração se importa, adota causas, realmente se engaja! Pode não parecer, mas de novo peço que você ajuste a visão, porque estamos nos engajando sempre e você vai ficar pra trás. Tenho certeza que na sua época tudo era tabu, tudo era proibido. Minha geração discute machismo e misoginia, discute homofobia e questões de gênero, discute racismo e nossa cultura escravocrata. Cara, na sua época quase ninguém questionava só existirem pessoas brancas nas faculdades; ou as mulheres ganharem menos; ou os desejos enrustidos que se manifestam na transfobia. Bem, com licença, mas a gente se importa (e se importa muito)!

Mesmo estudando em escolas de gerações passadas, que ensinam a obedecer e não a questionar; mesmo sendo preparados para sermos funcionários e não para quebrarmos paradigmas; mesmo ouvindo que “as coisas são assim mesmo”; mesmo contra todas as possibilidades; e, mais importante, mesmo sem ter pedido a sua opinião: mudamos o mundo! E já passou da hora de você aprender a lidar com isso.