Ultimamente, tenho acreditado cada vez mais que ocupar os nossos próprios espaços vazios é um ato pessoal de rebeldia. E isso, em essência, é não se conformar em ser pra sempre o mesmo, porque um espaço vazio não precisa ser vazio de ocupação, mas de funcionalidade, a ponto de olhar para si e não reconhecer propósito, não reconhecer legitimidade no que se tem sido. É se perder em si.

Eu sempre fui um cara teimoso, com forte desprezo por mudanças; talvez pelo meu TOC, talvez - pura e simplesmente - porque sim. Às vezes, gosto de ser teimoso por esporte e discordo pelo prazer de uma boa discussão. E, por mais que do debate surja a verdade, isso não é exatamente bom quando você precisa se adaptar. Esse talvez tenha sido meu maior choque ao entrar na Fermen.to: era preciso adquirir uma capacidade imensa de adaptação. Por que? Porque num sistema horizontal não existem garantias de que você sempre vai ser o que é. E toda vez que você se depara com uma versão nova de você e do que você faz, é preciso abrir mão do que foi e do que fazia.

Isso foi verdade tantas vezes: 1. levamos um ano testando sistemas de gerenciamento e organização que conseguissem preencher nossos espaços de produtividade. A cada um deixado pra trás, era preciso abrir mão de uma escolha. E vocês não fazem ideia de quantos foram até chegarmos ao modelo atual (Trello + Habitica: recomendo!); 2. em certo ponto, todo mundo é incentivado a sair da sua zona de conforto e aprender algo que não sabia fazer, seja um redator aprendendo um pouco mais sobre a parte de compra de mídia digital ou um designer aprendendo sobre a estrutura de um texto; 3. já organizamos eventos e festas de lançamento, participamos de feiras/bazares, aprendemos sobre legislação eleitoral e código de ética médica, já fizemos cerveja própria com o nome da Fermen.to; 4. e a lista vai longe.

Hoje, dois anos depois de embarcar no que considero a experiência mais enriquecedora da minha vida, eu percebo o quanto abri mão do que eu fui pra ocupar os espaços vazios em mim, que já não serviam propósito, a não ser o de me impedir de ser uma melhor versão de mim. E talvez essa seja a maior lição que tirei, tanto pra vida profissional quanto pra pessoal: não ser o mesmo, rebelar-se contra o que se é pra descobrir novas versões de si.

Tudo isso se reflete diretamente na nossa tomada de decisões, na nossa evolução como equipe, como empresa. Modéstias à parte, quando anunciavam que o vídeo era tendência nas redes sociais, já era nossa rotina. Quando estavam distraídos com isso, já incorporávamos o uso do GIF. Porque somos pioneiros e descobridores de novos trends? Quem dera, nem de longe. Por algo muito mais simples: porque nunca nos conformamos em sermos sempre os mesmos, em fazer sempre o mesmo.

Um grande exemplo disso talvez seja uma experiência que fizemos certa vez: decidimos adiantar o máximo que conseguíamos de trabalho, adiantar um mês! E então fizemos. Até que tudo pareceu velho; datado; não era mais nossa realidade aquilo, já havíamos mudado. Refizemos o trabalho, assim como nos refizemos nesse meio tempo.

Gosto de acreditar que esse posicionamento nos fez melhores tomadores de decisões, porque estamos sempre dispostos a abrirmos mão do que somos pela chance de sermos algo melhor. E mais, gosto de acreditar que isso me fez melhor: porque estou sempre disposto a me confrontar; a me rebelar contra mim; a ocupar os meus espaços vazios, principalmente os que estão vazios de propósito. Num mundo corporativo onde reconhecer o seu lugar é segredo para o sucesso; num mundo de relações interpessoais onde manter-se em seu lugar é o segredo para a simpatia alheia; nesses mundos, tomamos uma decisão: de começar um texto como um; terminá-lo como alguém novo. E se terminarmos esse texto não sendo o melhor que podemos ser, sem problemas: quem sabe amanhã uma nova versão seja. Mas espero que não, porque qual seria a graça de ser pra sempre o mesmo?