Esse é um texto que venho adiando há meses, mas um acontecimento após o outro me fez sentar em um domingo e começar. Precisamos conversar (e bem sério!) sobre a nossa culpa. Então pode relaxar na cadeira que o assunto é longo.

O ano é 2006, meu primeiro estágio de publicidade, o meu primeiro trabalho foi rejeitado pelo cliente. O motivo? A modelo era negra. A diretora de criação já sabia que o cliente rejeitaria, mas ela enviou a peça mesmo assim. Essa foi uma lição que eu levei oito anos pra entender.

Depois de um tempo longe da área, retorno. É 2014: a publicidade que antes eu enxergava como um meio, que era só o caminho que guiava o cliente ao lucro, agora também é um fim em si mesmo. Se você perguntar para qualquer pessoa qual a profissão que lida com vidas, médico ou publicitário, a resposta é sempre a primeira, quando a resposta deveria ser "as duas".

Nós, comunicadores, somos responsáveis pela propagação de todos os padrões sociais que podem matar ou incluir; e temos um histórico reproduzindo os que matam. Nos jornais, notícia de um estupro coletivo no Rio de Janeiro. No comercial, uma mulher desconhecida passa e os homens se sentem no direito de virar a cabeça, assobiar, chamar, tocar, assediar. Nas redes sociais, pessoas questionando e menosprezando a existência de uma “cultura de estupro”. No comercial, uma marca de cerveja sugere que não existe “não” na época com a maior quantidade de estupros no país.

E nossa responsabilidade vai muito além: a família margarina? É branca. E o homem se veste para o trabalho enquanto a mulher faz o café e apronta o filho. A empregada? Negra. O peão em comercial de material de construção? Nordestino. O engenheiro ou dono da casa? Ele não, óbvio. O casal? Homem e mulher. Homossexuais? Alívio cômico, quando aparecem.

Quando um ataque homofóbico acontece, precisamos lembrar que nós propagamos a heteronormatividade. Quando uma mulher é violentada, precisamos lembrar que nós reproduzimos a objetificação. Quando um episódio racista acontece, precisamos lembrar que nós difundimos a elitização branca e a periferização negra.

Todas as vezes que alunos de publicidade visitaram a Fermen.to para saber mais sobre a área e pediram para eu dar conselhos pra quem está começando, eu não falei para montarem portfólio, estudarem, começarem cedo. Não, isso todo mundo fala. Eu escolhi dizer outra coisa: quebrem os padrões; compreendam a função social da comunicação; assumam responsabilidade pela sociedade.

Porque a sociedade não vai assumir. A sociedade vai questionar a credibilidade da vítima a todo custo, mas vai perdoar o réu sem pensar. A sociedade vai fazer o que estiver ao seu alcance para justificar a violência, porque inocentando o culpado, ela também se livra da responsabilidade que carrega. Mas nós, comunicadores, não somos a sociedade: nós definimos QUEM é a sociedade; e ela tem precisado de mais inclusão. Muito mais.