S2 em SP

Ativismo Compassivo e a compreensão por cima dos muros.

A intolerância permanente nos faz querer entender. Assim, o subtítulo da conversa, obrigou-me a entrar na sala: como acolher a nós mesmos e quem pensa radicalmente diferente de nós? Nos vejo negando essa pergunta nas redes sociais e caixas comentários. O que vemos é um minucioso trabalho de coleta de opiniões. Para posterior rotulação e aplicação de séries padronizadas de ofensas ao grupo, direcionadas as pessoas. Excluímos e moralizamos - cheios de ‘razão’ - com que direito?

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A Ryane Leão tem uma língua afiada que deixa qualquer dito desconstruído com a cara no chão. Mulher infinita que você encontra escrita lá no Instagram @ondejazzmeucoracao. E é bom segurar o seu ao entrar, ele fica lá fácil.

O Jairo Pereira começou a falar sobre racismo e se sentiu alimentando o ódio que tentava combater, no pesado e engajadíssimo Diário Preto. Uma capacidade de síntese e argumentação fantástica, articulava o que muitos sentiam e não conseguiam exprimir. A desconstrução do caso #somostodosmacacos foi simplesmente magnífica. Por outro lado cada preconceito velado, quando mastigado e descortinado para a compreensão comum se torna munição em uma guerra.

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Dando adeus às armas iniciou o Alpiste de Gente comida de passarinho para nutrir olhos, ouvidos e corações. A Anna Haddad veio de um contexto social bem diferente dos outros, mais abastado onde a discriminação e os comportamentos misóginos são mais sutis. Assim como o Jairo teve condições de compreender e articular os incômodos de muitas mulheres na mesma situação. Hoje elas alimentam uma plataforma, que embora escrita e voltada para mulheres, é comum a mim também. Comum.vc

Aprendi que usar ‘x’ em todxs, não é frescura, uma vez que a palavra vem a cabeça. E que é realmente necessário conversar com as pessoas que estão do outro lado do muro da nossa incompreensão. Descoisificar percebendo que é preciso ser muito humano para olhar o outro - com aquela opinião ultrajante - e ver outro humano. Trazendo frustrações parecidas e motivações diferentes.

O esforço de empatia é imprescindível, nossa humanidade depende de considerarmos o outro parte dela. Os recortes, rótulos e etiquetas que fiquem para as coisas. Essa compartimentação que fazemos quase sem perceber. É uma faca analítica dividindo o mundo - separando e categorizando o que entra em contato conosco. O importante é saber que esse corte é figurativo e que aqueles - com as etiquetas que pusemos - são pessoas. Cada uma delas extrapolando (e muito) os rótulos que estampamos nelas. Cada ser humano possui uma vastidão imensa para muito além daquilo com o que você discorda. No momento da foto a postura é fixa, mas a caminhada da vida muda a todos. Se deixarmos o outro estacado sempre no momento em que pisou na bola, perdemos a queda, a reflexão e a volta por cima.

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Vivemos tempos delicados, onde a opinião - mesmo que isolada - de uma pessoa gera uma série de especulações sobre seu caráter e valores. Lembre-se que o outro - para quem te vê - é você.

Outro paulistano - cheio de amor para dar - Mário de Andrade é que fecha o texto com sua mais famosa e categórica digressão:

"Mas eu só queria saber neste mundo misturado quem concorda consigo mesmo! Somos misturas incompletas, assustadoras incoerências, metades, três-quartos e quando muito nove-décimos. Até afirmo não existir uma só pessoa perfeita, de São Paulo a São Paulo, a gente fazendo toda a volta deste globo, com expressiva justeza adjetivadora, chamado de terráqueo."